TIRADENTES

Cordel premiado com o 2º lugar no I Concurso Nacional de Literatura de Cordel, em homenagem ao bicentenário de Joaquim José da Silva Xavier (1792–1992). Texto transcrito da edição digitalizada pelo autor em tortoro.com.br/?p=520.
A história da Independência poderia ser assim… Estamos em Vila Rica, anos oitenta no fim, o século é dezoito e para um grupo afoito haverá batizado sim. Na noite cheia de sombras "amanhã é o batizado" é a senha que corre célere já com seu dia marcado por alguns conspiradores cujos sofrimentos, dores, tornam qualquer, revoltado. Assinara um decreto: o local governador ordenando a derrama espalhando o terror com rigorosa cobrança de quem já sem esperança se entregava ao medo e à dor. E Vila Rica adormece com a rebelião no ar, sonhando com Independência que cansavam de esperar, numa luta sempre em vão soprando na escuridão mensagem que vai chegar. E tal mensagem chegou com vivas à liberdade Palácio da Cachoeira local de fraternidade… Dragões de Minas à frente de um povo mui sorridente festejando na cidade. Tomaram Real Fazenda em plena revolução, governo de Barbacena o primeiro na prisão e emissários, desvario Bahia, São Paulo e Rio dando as novas à Nação. Minas agora está livre tem governo Nacional enfim, Independência, guerra contra Portugal. A liberdade tardia brotava naquele dia provinda de um ideal. Mas a verdadeira história se fez muito diferente… Governador não foi preso o povo sempre indiferente não se levantou jamais. Tiradentes nunca mais se viu livre novamente. O Mártir preso no Rio sofreu uma traição delatado em Vila Rica por um coronel vilão, Joaquim Silvério dos Reis por causa de alguns mil réis entregou cirurgião. Joaquim José da Silva, parte de mãe, Xavier, de sete irmãos, era o quarto filho como outro qualquer ficou órfão aos onze anos foi esquecer desenganos com o padrinho e a mulher. Ouviu histórias de ouro na Vila de São José conheceu todas as lutas sonhou com Europa até. Viu fortunas se fazerem minas de ouro empobrecerem mas no país tinha fé. Desiludido tropeiro e minerador sem sorte, resolveu ser um alferes alto, magro, vesgo e forte. Descendente português bom conversador se fez tendo em coragem suporte. Da Capital da Colônia a bela Rio de Janeiro, voltou para Vila Rica comandante patrulheiro de um caminho de diamantes onde nunca viu como antes ser roubado o brasileiro. Vila… Rica? O ouro preto? Um Joaquim… Mais um José… Capitania de Minas Tira ouro… Tira fé. Barbaria, Barbacena Lusa Coroa sem pena, sobra de ouro pouca é. Mas o tempo foi passando nenhuma promoção vinha por ser ele brasileiro que bajulação não tinha. Levantou então a voz ante uma opressão feroz que dominação continha. Tira esperança, futuro tempo é duro, sobra é pouca tudo vai para Lisboa a Rainha é uma louca opressão, derrama, lágrimas de gritar a voz é rouca. E na Vila Rica em ouro Igrejas e procissões, sobradões de muito luxo e mais manifestações. Surgiram Cartas Chilenas escritas a duas penas cantando as situações. Qual n'outras partes do mundo, luta contra tirania viva, movia as nações. O homem, ser livre, devia, poder pensar livremente e matar rapidamente o medo que emudecia. E em vista a Declaração de que homens nascem iguais com inalienáveis direitos, tornaram-se então normais, busca da felicidade da vida e da liberdade de um novo mundo, ideais. Maciel e Tiradentes promovem reunião, na Casa de Paula Freire, em plena conspiração. Muitos são os convidados poetas e até prelados em prol da libertação. Proclamação da República, Nova Constituição, Sede em São João Del Rei o final da escravidão, com uma Universidade em Vila Rica, a cidade, como uma compensação. Mas como aqui foi contado, alguém de "mau coração" fez divulgar surdamente aquela revolução. Foi a derrama suspensa com a surpresa não se pensa, surte fruto a delação. Esmagada rebelião, sem um tiro disparado, começaram as prisões em um grupo amedrontado. Com o alferes ausente, cada membro inconfidente entrega-se apavorado. Tiradentes enganado, duplamente, por Silvério parte do Rio p'rá São Paulo envolto ainda em mistério. Vencido pela tortura Padre Inácio não segura o seu segredo mais sério. Relata onde está o alferes: Na Rua dos Latoeiros tramando planos de fuga. E o herói levam armeiros que com bacamarte na mão uma última reação tenta em gestos derradeiros. Pouco a pouco, inconfidentes sob agressão se renderam. Primeiro foi Alvarenga, e os demais o sucederam. Só Gonzaga resistiu pois contra, prova não viu, e os fatos só o absolveram. Tira o fado… Tira o medo imprudência dos mazombos caça à Maciel, Rolim, devassa, estrondos e rombos. A poesia naufraga Peixoto, Manuel, Gonzaga a causa se faz escombros. Em três interrogatórios, alferes tudo negou mas no quarto, em janeiro, resolveu e confessou toda a culpa ele assumiu ser chefe único, mentiu e aos seus amigos salvou. Dez vidas ele daria se assim ele as tivesse para salvar seus amigos. E como assim Deus quisesse uma única ele a deu de um corpo que se abateu. Ato que nos enrubesce!… Cruel dar a vida… A única, patíbulo sem gemido feito em quartos, credo ora, Cristo em sedição punido único de trinta e quatro. Pedro Américo no esquadro o retrata embevecido. Tiradentes está morto, bater dos tambores cresce, um ser balança no ar, mas causa não adormece. Do Largo da Lampadosa a idéia maravilhosa até hoje nos aquece. Os pensamentos rebeldes, gestos desobedientes, desejos de liberdade, são sempre ingredientes, por homens livres, buscados nas sombras dos enforcados como o foi "O Tiradentes".
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