Antonio Carlos TórtoroACTORTOROO universo poético de Antonio Carlos Tórtoro

Estrelas no Mar

Poema

ESTRADA

Ilustração — ESTRADA

ESTRADA nasceu das imagens de um pesadelo: alguém caminha por uma estrada repleta de percalços, tropeços e ameaças, sem saber ao certo onde vai chegar. Ao despertar, vem a revelação inquietante — o pesadelo não ficou no sonho. A vida real também carrega seus abismos, suas dificuldades e suas estradas ásperas. O poema é esse instante de lucidez amarga, em que o sonho e a vigília se confundem, e caminhar passa a ser um ato de resistência.

Caminho na escuridão,
o pó sufoca.
Nada vejo...
nada ouço...
nada sou.

Até que um som me envolve
no motor de um automóvel,
que louco
invade a estrada...
de encontro a mim
com o farol encoberto
pela poeira levantada.

Abro os braços,
toco um muro...
e ansioso tento
com dificuldade escalá-lo.

Escorrego no intento,
mas num relance,
de soslaio,
do outro lado...
vejo luzes da cidade
e caio.

O pó sufoca,
o lusco-fusco do farol
cega por momentos...
e por um instante
espero a morte...
que passa célere.

E eu acordo em sobressalto,
na estrada de mais um dia...
mais um muro...
mais poeira...
mais um não-sei-quê
que me angustia.

Declamação

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