ESTRADA

ESTRADA nasceu das imagens de um pesadelo: alguém caminha por uma estrada repleta de percalços, tropeços e ameaças, sem saber ao certo onde vai chegar. Ao despertar, vem a revelação inquietante — o pesadelo não ficou no sonho. A vida real também carrega seus abismos, suas dificuldades e suas estradas ásperas. O poema é esse instante de lucidez amarga, em que o sonho e a vigília se confundem, e caminhar passa a ser um ato de resistência.
Caminho na escuridão, o pó sufoca. Nada vejo... nada ouço... nada sou. Até que um som me envolve no motor de um automóvel, que louco invade a estrada... de encontro a mim com o farol encoberto pela poeira levantada. Abro os braços, toco um muro... e ansioso tento com dificuldade escalá-lo. Escorrego no intento, mas num relance, de soslaio, do outro lado... vejo luzes da cidade e caio. O pó sufoca, o lusco-fusco do farol cega por momentos... e por um instante espero a morte... que passa célere. E eu acordo em sobressalto, na estrada de mais um dia... mais um muro... mais poeira... mais um não-sei-quê que me angustia.
Declamação
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