Antonio Carlos TórtoroACTORTOROO universo poético de Antonio Carlos Tórtoro

Água Viva

Poema

FÉRETRO

Ilustração — FÉRETRO

FÉRETRO é um poema que transforma uma cena cotidiana da praia em rito e metáfora. O barco que retorna da pescaria, abarrotado de peixes mortos, torna-se um féretro que encalha na areia diante do olhar das pessoas. Gaivotas sobrevoam como sentinelas do fim, enquanto a vida humana observa, negocia, consome. Entre o mar, o sangue e o silêncio, o poema convida o espectador a enxergar a morte não como espetáculo, mas como espelho.

Primeiro o assédio das gaivotas
até próximo do litoral .
Depois o pessoal da praia ,
em desordenada e alegre procissão
seguindo o féretro
de cações e tubarões ,
corvinas e redondos ,
salteiras e martelos
corroídos por sirís .

O burburinho é forte
e o corte das barrigadas
atrai com seus odores varejeiras
para as víceras , escamas ,
sangue e suor
dos pescadores .

A barraca é referência
por instante apenas .
Enfim o Paraná descansa .

No colo a rede enfeitada de conchas .
O ronco das ondas no ar .
O último couro
é arrancado do tubarão .

Silenciam facas e facão .
E João pescador desaparece
na Avenida do Mar .

Declamação

Vídeo

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