TEMPLO MARCADO

“Templo Marcado” é um poema que transforma os corredores frios de um hospital em um espaço de reflexão sobre a fragilidade humana, a dor, a esperança e a presença silenciosa de Deus. Entre apitos, luzes, portas e sombras, o texto percorre o limite tênue entre vida e morte, revelando que, nos instantes extremos da existência, o ser humano descobre que "ser" vale mais do que "ter". Ao final, em meio à tecnologia e ao sofrimento, surge a percepção do divino: Deus presente ao lado do Siemens GAMMATRON. Esse poema foi escrito quando do câncer do meu pai, e eu o acompanhava às sessões no Hospital de Clínicas de Ribeirão Preto-SP. Foi o primeiro poema meu, publicado na coluna Poetas de Ribeirão, no jornal A Cidade, na década de sessenta.
Procuro por Deus ali, naquele hospital abissal, E busco nos gestos sinais de um toque divinal. Qual o sinal do Senhor em Caim, mistério sem fim, Rosto marcado surge profundo, fecundo, Como ferro em brasa, queimando a alma, inflama e acalma, Gravando cruz lilás no mais íntimo de mim. Um apito qual do metrô rompe o silêncio, tenso, E marca partidas no tempo preciso e intenso. Teclas batendo em compasso, traçando o espaço escasso. Portas-estações numeradas se abrem e seguem, não neguem, De branco em cinza, caminhos frios que a vida revisa, E o homem se perde no fluxo profundo do passo. Luz verde esperança alterna com o vermelho da dor, E a vida se move no ritmo instável do pavor. Passa a vida ligeira, enquanto a morte inteira impera, E a enfermeira registra papéis na rotina divina, Sob portas que rangem, ecos que ferem e tangem, Num jogo cósmico onde se mede o valor. Corpos alvos cruzando corredores sem voz, Como senhores da vida em contraste feroz, Sombras azuis se arrastam em fios, desafios tardios, Presas a tubos e dores que o tempo compõe e repõe. Calvícies, ansiedades, sinais de frágeis verdades, E o monitor indiferente nada enxerga além de nós. Raios invisíveis percorrem paredes em vão, E o tempo se conta em apitos de aplicação, Vida e morte entrelaçadas, faces entrelaçadas. E no limiar do infinito, onde o finito é descrito, Ser já importa mais que ter, no instante de sobreviver... E vejo Deus ao lado do GAMMATRON da Siemens !
Declamação
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