Antonio Carlos TórtoroACTORTOROO universo poético de Antonio Carlos Tórtoro

Ecos

Poema

TEMPLO MARCADO

Ilustração — TEMPLO MARCADO

“Templo Marcado” é um poema que transforma os corredores frios de um hospital em um espaço de reflexão sobre a fragilidade humana, a dor, a esperança e a presença silenciosa de Deus. Entre apitos, luzes, portas e sombras, o texto percorre o limite tênue entre vida e morte, revelando que, nos instantes extremos da existência, o ser humano descobre que "ser" vale mais do que "ter". Ao final, em meio à tecnologia e ao sofrimento, surge a percepção do divino: Deus presente ao lado do Siemens GAMMATRON. Esse poema foi escrito quando do câncer do meu pai, e eu o acompanhava às sessões no Hospital de Clínicas de Ribeirão Preto-SP. Foi o primeiro poema meu, publicado na coluna Poetas de Ribeirão, no jornal A Cidade, na década de sessenta.

Procuro por Deus ali, naquele hospital abissal,
E busco nos gestos sinais de um toque divinal.

Qual o sinal do Senhor em Caim, mistério sem fim,
Rosto marcado  surge profundo, fecundo,
Como ferro em brasa, queimando a alma, inflama e acalma,
Gravando cruz lilás no mais íntimo de mim.

Um apito qual do metrô rompe o silêncio, tenso,
E marca partidas no tempo preciso e intenso.

Teclas batendo em compasso, traçando o espaço escasso.

Portas-estações numeradas se abrem e seguem, não neguem,
De branco em cinza, caminhos frios que a vida revisa,
E o homem se perde no fluxo profundo do passo.

Luz verde esperança alterna com o vermelho da dor,
E a vida se move no ritmo instável do pavor.

Passa a vida ligeira, enquanto a morte inteira impera,
E a enfermeira registra papéis na rotina divina,
Sob portas que rangem, ecos que ferem e tangem,
Num jogo cósmico onde se mede o valor.

Corpos alvos cruzando corredores sem voz,
Como senhores da vida em contraste feroz,
Sombras azuis se arrastam em fios, desafios tardios,
Presas a tubos e dores que o tempo compõe e repõe.

Calvícies, ansiedades, sinais de frágeis verdades,
E o monitor indiferente nada enxerga além de nós.

Raios invisíveis percorrem paredes em vão,
E o tempo se conta em apitos de aplicação,
Vida e morte entrelaçadas, faces entrelaçadas.

E no limiar do infinito, onde o finito é descrito,
Ser já importa mais que ter, no instante de sobreviver...

E vejo Deus ao lado do GAMMATRON da Siemens !

Declamação

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