Antonio Carlos TórtoroACTORTOROO universo poético de Antonio Carlos Tórtoro

Mosaico

Poema

GATO

Ilustração — GATO

O poema GATO é uma elegia íntima e dolorosamente humana. A perda do animal de estimação transcende o simples luto — torna-se reflexão sobre ausência, memória e finitude. O que mais dói não é apenas a partida, mas a falta do último gesto, do último toque, da despedida que não aconteceu. Ao descrever o gato com suas imperfeições — sujo, preguiçoso, namorador, insaciável — você o eterniza naquilo que o tornava único. Há ternura na lembrança do tapete, da cama, da geladeira; pequenos cenários domésticos que agora carregam o peso do silêncio. Quando o eu lírico afirma sofrer “perda de sete vidas”, amplia o luto para além do animal: é o homem refletindo sobre sua própria fragilidade. GATO é amor tardio, é saudade que ensina, é a consciência de que toda despedida deveria ser inteira.

Perdi meu gato
sem lembrar-me
do último toque em seu pelo,
do último miado,
do último ronronar,
do último ato
de despedida.
Perdi meu gato,
não o verei jamais
no tapete,
ao pé da cama,
defronte a geladeira.
Somente um retrato
sobrou após a partida.
Perdi meu gato
que era sujo,
pestilento,
preguiçoso,
namorador barulhento,
sempre enfiado no mato
e insaciável por comida.
Perdi meu gato
e o fato da sua ausência
sem a devida despedida
é insuportável.
Sofro perda de sete vidas
de um animal cujo fado
fez-me refletir sobre o meu.

Declamação

Vídeo

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