IGREJA DOURADA

No poema IGREJA DOURADA, convido o leitor a atravessar os portais verde-folha de um dos mais intensos cenários do Barroco baiano, onde ouro, jacarandá e fé se entrelaçam. Entre colunas salomônicas, querubins, fênix e ecos de liberdade, revelo não apenas a opulência artística, mas também as marcas da dor e da esperança que habitam cada detalhe esculpido. A igreja não é somente arquitetura: é memória viva. É o Divino que permeia matéria, suor, sangue e arte. É o contraste entre a clausura e o grito, entre a opressão e o Espírito que observa do teto. Ao final, resta um desejo profundo — permanecer ali, suspenso entre beleza e transcendência, na intimidade silenciosa com o Criador.
Beco do seminário. Um cheiro forte de madeira, gesso e seiva de bananeira. Enormes portais verde-folha. Brilho do ouro laminado em pó. Enfim, São Francisco e o Cristo do escultor Pedro Ferreira. Ecos de querubins e amorecos castrados – mesmo assim, belos – sustentados por Atlantes em colunas de Salomão de coração de argila, pedra e sangue, banhado em óleo de baleia. Tudo permeia o Divino. Na capela dos escravos sob as torres da opressão ecoam gritos de liberdade. O Espírito Santo no teto observa atento a dor de Alcântara, o Pedro, de Inácio da Costa. E a porta-paravento tudo esconde. Na clausura, o silêncio da voz de Horácio em azulejos, representando Teatro da vida. E entre volutas e capitéis distribuídas diversas Fênix ressurgem guardadas pela águia do portal da Ordem Terceira de Francisco. Nos olhos a obra de quaresma – construtor. Nos ouvidos a voz de Ávila – benfeitor. Um cheiro forte de Bahia, de dendê, envolvendo peças de jacarandá. Na alma a beleza do Barroco. No coração só um desejo louco de ali ficar: com o Criador.
Declamação
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