Antonio Carlos TórtoroACTORTOROO universo poético de Antonio Carlos Tórtoro

Mosaico

Poema

IGREJA DOURADA

Ilustração — IGREJA DOURADA

No poema IGREJA DOURADA, convido o leitor a atravessar os portais verde-folha de um dos mais intensos cenários do Barroco baiano, onde ouro, jacarandá e fé se entrelaçam. Entre colunas salomônicas, querubins, fênix e ecos de liberdade, revelo não apenas a opulência artística, mas também as marcas da dor e da esperança que habitam cada detalhe esculpido. A igreja não é somente arquitetura: é memória viva. É o Divino que permeia matéria, suor, sangue e arte. É o contraste entre a clausura e o grito, entre a opressão e o Espírito que observa do teto. Ao final, resta um desejo profundo — permanecer ali, suspenso entre beleza e transcendência, na intimidade silenciosa com o Criador.

Beco do seminário.
Um cheiro forte de madeira,
gesso e seiva de bananeira.
Enormes portais verde-folha.
Brilho do ouro laminado em pó.
Enfim, São Francisco e o Cristo
do escultor Pedro Ferreira.
Ecos de querubins e amorecos
castrados – mesmo assim, belos –
sustentados por Atlantes
em colunas de Salomão
de coração de argila, pedra
e sangue, banhado em óleo de baleia.
Tudo permeia o Divino.
Na capela dos escravos
sob as torres da opressão
ecoam gritos de liberdade.
O Espírito Santo no teto
observa atento a dor de Alcântara,
o Pedro, de Inácio da Costa.
E a porta-paravento tudo esconde.
Na clausura, o silêncio
da voz de Horácio em azulejos,
representando Teatro da vida.
E entre volutas e capitéis distribuídas
diversas Fênix ressurgem
guardadas pela águia do portal
da Ordem Terceira de Francisco.
Nos olhos a obra de quaresma – construtor.
Nos ouvidos a voz de Ávila – benfeitor.
Um cheiro forte de Bahia, de dendê,
envolvendo peças de jacarandá.
Na alma a beleza do Barroco.
No coração só um desejo louco
de ali ficar: com o Criador.

Declamação

Vídeo

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