JONAS

No poema JONAS, revisito a antiga metáfora bíblica para falar do homem contemporâneo. Diante da inflação, da fome, da corrupção, das guerras e da desumanização crescente, surge o impulso de fugir — de embarcar para Társis, escapar da responsabilidade, calar a própria consciência. Mas há um momento de silêncio. Um quarto escuro. Um “grande peixe” interior onde somos confrontados por Deus e por nós mesmos. É ali, no recolhimento forçado da alma, que nasce a coragem. JONAS é o poema da virada: da fuga para o enfrentamento, do medo para a missão. Não é sobre escapar do mundo — é sobre atravessá-lo. É sobre partir, apesar de tudo, em direção à própria Nínive.
Diante da inflação, da fome de feijão e justiça, da AIDS física e moral, do desemprego constante e crônico e da estagnação total e deprimente, penso em fugir para Társis. Diante da corrupção, do ódio por tudo e todos, das guerras entre nações e irmãos, do mal do povo e individual e da falta de compreensão animal, penso em fugir para Társis. Diante da ambição, da dor local e generalizada, dos conflitos nacionais e internacionais, dos olhares aflitos e oprimidos e da desumanização geral e parcial, penso em fugir para Társis. Diante de Deus, do silêncio, da escuridão de meu quarto, (meu grande peixe) ganho forças e parto para Nínive.
Declamação
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