Antonio Carlos TórtoroACTORTOROO universo poético de Antonio Carlos Tórtoro

Mosaico

Poema

JONAS

Ilustração — JONAS

No poema JONAS, revisito a antiga metáfora bíblica para falar do homem contemporâneo. Diante da inflação, da fome, da corrupção, das guerras e da desumanização crescente, surge o impulso de fugir — de embarcar para Társis, escapar da responsabilidade, calar a própria consciência. Mas há um momento de silêncio. Um quarto escuro. Um “grande peixe” interior onde somos confrontados por Deus e por nós mesmos. É ali, no recolhimento forçado da alma, que nasce a coragem. JONAS é o poema da virada: da fuga para o enfrentamento, do medo para a missão. Não é sobre escapar do mundo — é sobre atravessá-lo. É sobre partir, apesar de tudo, em direção à própria Nínive.

Diante da inflação,
da fome de feijão e justiça,
da AIDS física e moral,
do desemprego constante e crônico
e da estagnação total e deprimente,
penso em fugir para Társis.
Diante da corrupção,
do ódio por tudo e todos,
das guerras entre nações e irmãos,
do mal do povo e individual
e da falta de compreensão animal,
penso em fugir para Társis.
Diante da ambição,
da dor local e generalizada,
dos conflitos nacionais e internacionais,
dos olhares aflitos e oprimidos
e da desumanização geral e parcial,
penso em fugir para Társis.
Diante de Deus,
do silêncio,
da escuridão de meu quarto,
(meu grande peixe)
ganho forças e parto
para Nínive.

Declamação

Vídeo

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