Antonio Carlos TórtoroACTORTOROO universo poético de Antonio Carlos Tórtoro

Mosaico

Poema

SAPATOS

Ilustração — SAPATOS

No poema SAPATOS, objetos cotidianos ganham voz — e que voz! À beira da cama, tênis, saltos e sapatos sociais tornam-se personagens de um drama íntimo. Gritam silenciosamente, expõem conflitos, revelam identidades e papéis que vestimos ao despertar. O tênis escancara a pressa sufocada. O salto alto entoa uma ópera contida. O couro, em suas cores e formas, traduz escolhas, máscaras e desejos. Sempre aos pares, sempre prontos para caminhar — mas nunca neutros. SAPATOS é metáfora do amanhecer humano: o parto da manhã, quando vestimos nossos papéis e enfrentamos o mundo, carregando, nos pés, os ecos dos nossos mais profundos conflitos.

Meus sapatos gritam
um grito de beira de cama, de abismo
aberto e franco
branco, preto ou amarelo ouro
dependendo do tipo de couro.
O tênis boquiaberto
não sei se ri ou morre asfixiado,
pois não tem olhos,
garganta à mostra,
língua esticada de enforcado.
O par de saltos altos
em dueto, interpreta ópera
silenciosa.
Sempre aos pares
os mesmos gritos no quarto
acordando os meus íntimos conflitos
no despertar
em trabalho de parto
da manhã.

Declamação

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