SAPATOS

No poema SAPATOS, objetos cotidianos ganham voz — e que voz! À beira da cama, tênis, saltos e sapatos sociais tornam-se personagens de um drama íntimo. Gritam silenciosamente, expõem conflitos, revelam identidades e papéis que vestimos ao despertar. O tênis escancara a pressa sufocada. O salto alto entoa uma ópera contida. O couro, em suas cores e formas, traduz escolhas, máscaras e desejos. Sempre aos pares, sempre prontos para caminhar — mas nunca neutros. SAPATOS é metáfora do amanhecer humano: o parto da manhã, quando vestimos nossos papéis e enfrentamos o mundo, carregando, nos pés, os ecos dos nossos mais profundos conflitos.
Meus sapatos gritam um grito de beira de cama, de abismo aberto e franco branco, preto ou amarelo ouro dependendo do tipo de couro. O tênis boquiaberto não sei se ri ou morre asfixiado, pois não tem olhos, garganta à mostra, língua esticada de enforcado. O par de saltos altos em dueto, interpreta ópera silenciosa. Sempre aos pares os mesmos gritos no quarto acordando os meus íntimos conflitos no despertar em trabalho de parto da manhã.
Declamação
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