VAZIO

No poema VAZIO, a cidade transforma-se em boca aberta — arcada dentária de concreto onde prédios são dentes arrancados e tratores tornam-se instrumentos cirúrgicos de uma modernidade implacável. Cada demolição cria um espaço que logo será preenchido, mas nunca devolve o que foi perdido. Entre próteses de luxo e memórias soterradas, Ribeirão Preto se reconstrói como Fênix urbana — porém sem o encanto da infância que habitava suas fachadas antigas. O progresso fecha os espaços físicos, mas abre vazios na história. VAZIO é um lamento crítico e amoroso. Questiona o preço do crescimento e denuncia o silêncio diante do tombar do patrimônio. É poesia que escava — não o concreto — mas a consciência coletiva.
Abre-se um vazio na arcada dentária de concreto e por momentos posso ver o céu da boca de uma cidade tomada por apartamentos. Abre-se novo vazio na dentadura de concreto. Qual enorme boticão tratores e britadeiras uma cárie da cidade extraem com dente na destruição. Preenchem-se todos os vazios na boca aberta do vulcão adormecido. E a cidade de Ribeirão Preto recompõe-se em ricas próteses, qual Fênix, do destruído. Fecham-se os espaços. O hoje não mais admira o cenário da infância da gente. A Capital da Cultura não chora o tombar de seu patrimônio que a nossa história torna indigente.
Declamação
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