Antonio Carlos TórtoroACTORTOROO universo poético de Antonio Carlos Tórtoro

Mosaico

Poema

VAZIO

Ilustração — VAZIO

No poema VAZIO, a cidade transforma-se em boca aberta — arcada dentária de concreto onde prédios são dentes arrancados e tratores tornam-se instrumentos cirúrgicos de uma modernidade implacável. Cada demolição cria um espaço que logo será preenchido, mas nunca devolve o que foi perdido. Entre próteses de luxo e memórias soterradas, Ribeirão Preto se reconstrói como Fênix urbana — porém sem o encanto da infância que habitava suas fachadas antigas. O progresso fecha os espaços físicos, mas abre vazios na história. VAZIO é um lamento crítico e amoroso. Questiona o preço do crescimento e denuncia o silêncio diante do tombar do patrimônio. É poesia que escava — não o concreto — mas a consciência coletiva.

Abre-se um vazio
na arcada dentária de concreto
e por momentos
posso ver o céu da boca
de uma cidade
tomada por apartamentos.
Abre-se novo vazio
na dentadura de concreto.
Qual enorme boticão
tratores e britadeiras
uma cárie da cidade
extraem com dente na destruição.
Preenchem-se todos os vazios
na boca aberta
do vulcão adormecido.
E a cidade de Ribeirão Preto
recompõe-se em ricas próteses,
qual Fênix, do destruído.
Fecham-se os espaços.
O hoje não mais admira
o cenário da infância da gente.
A Capital da Cultura não chora
o tombar de seu patrimônio
que a nossa história torna indigente.

Declamação

Vídeo

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