Poemas
- 01
MOSAICO
No poema “Mosaico”, o olhar se debruça sobre o chão de um quarto e descobre ali o universo. A madeira marcada pelo tempo — outrora floresta viva — transforma-se em metáfora da própria existência humana: fragmentos distintos que, reunidos, constroem unidade. Entre veios, cores e ranhuras, o poeta nos lembra que a diversidade de vidas, sonhos e histórias forma o grande mosaico do cosmos. Um convite à contemplação do tempo, da natureza e da harmonia possível entre as diferenças.
- 02
AMENDOIM
No poema “Amendoim”, o cotidiano transforma-se em metáfora da própria existência. Entre aparências e contradições — doce e sal, belo e feio, sonho e realidade — o poeta revela a natureza dual da vida humana. Cada verso expõe o jogo de opostos que nos constitui, lembrando que aquilo que parece inteiro pode ser apenas metade, e que a verdade se esconde nas ambiguidades. Ao final, a “Rua do Amendoim” – que realmente existe em Belo Horizonte - surge como símbolo do caminho pessoal de cada um: uma estrada de paradoxos onde caminhamos entre o que somos, o que parecemos e o que nos tornamos.
- 03
ÂNSIA
No poema “Ânsia”, a celebração do tempo vivido mistura-se ao temor silencioso do tempo que ainda virá. Entre taças erguidas e festas de réveillon, o poeta revela a fragilidade da existência e a consciência aguda de estar vivo apenas por mais um instante. A alegria coletiva contrasta com a inquietação íntima: sobreviver hoje não garante o amanhã. Em versos densos e humanos, o poema transforma o brinde à vida em reflexão sobre o mistério do ser, do tempo e da permanência — essa permanente ânsia de continuar.
- 04
ARCA
No poema “Arca”, o Brasil surge como símbolo de travessia e esperança para a humanidade. Entre dores e conquistas, diferenças e encontros, o poeta enxerga o país como uma grande embarcação humana, formada por povos, crenças e sonhos diversos. Em meio às imperfeições do mundo, destaca-se a força da fé, da solidariedade e da vontade de recomeçar. “Arca” é uma visão poética de um Brasil que, apesar das tempestades, guarda em si a possibilidade de renascimento e fraternidade universal.
- 05
ASISMO
No poema “Asismo”, a palavra transforma-se em denúncia e clamor ético. Com imagens fortes e simbólicas, o poeta revela as marcas invisíveis que a sociedade insiste em gravar nos corpos e identidades dos que são considerados diferentes. A obra questiona o preconceito, a exclusão e a violência histórica contra povos e indivíduos, invertendo o olhar: se há marca a ser feita, que recaia sobre quem discrimina. “Asismo” é um grito poético contra toda forma de segregação e um apelo por fraternidade, dignidade e reconhecimento humano.
- 06
BAÚ
No poema “Baú”, a paisagem da Serra da Mantiqueira transforma-se em metáfora interior. A majestosa Pedra do Baú, vigilante e silenciosa, acompanha curvas, capelas, erosões e flores como testemunha do tempo e da condição humana. Entre terras do leite e do café, entre fé e solidão, o poeta revela que a verdadeira geografia não é apenas a dos vales e montanhas, mas a que carregamos dentro de nós. Ao final, resta o “inviolável Baú da Pedra” — símbolo da essência íntima que precisa ser polida ao longo da vida.
- 07
BOCHA
No poema “Bocha”, o jogo simples da vida cotidiana transforma-se em profunda metáfora da existência humana. Entre bolas lançadas, medidas imprecisas e estratégias intuitivas, o poeta revela a busca constante por aproximação da felicidade — simbolizada pelo pequeno bolim. Amores e dores são arremessados na pista do tempo, onde todos se dizem mestres, mas permanecem aprendizes. “Bocha” é um retrato sensível das disputas, esperanças e frustrações que marcam nossa trajetória, lembrando que viver é, sobretudo, tentar chegar o mais perto possível do sentido de ser feliz.
- 08
CARREATA
No poema “Carreata”, a cena política cotidiana transforma-se em reflexão sobre o distanciamento entre promessas e realidade. Entre ruas, bares, janelas e favelas, o povo passa e observa — às vezes atento, às vezes indiferente — o espetáculo eleitoral que invade o cotidiano. O candidato acena, a câmera registra, mas a emoção rareia e o interesse se dissolve após o fim das eleições. Com ironia sutil e olhar crítico, o poema revela a efemeridade das campanhas e a silenciosa descrença que percorre as ruas, lembrando que a verdadeira participação popular vai além do instante passageiro da propaganda.
- 09
CELESTINO
No poema “Celestino”, a memória transforma-se em reverência musical. O poeta presta homenagem à voz imortal de Vicente Celestino, evocando palcos, discos e personagens que marcaram gerações. Entre ópera e canção popular, entre o drama de “Tosca” e a emoção de “O Ébrio”, ressurge a potência de um artista que transcendeu o tempo. A imagem da gôndola veneziana simboliza a travessia final rumo ao Cósmico, onde a voz não se cala, apenas ecoa em eternas serenatas. É um tributo sensível à arte que vence o silêncio e permanece viva na memória coletiva.
- 10
CONTOS
Seu poema CONTOS é uma explosão criativa que desmonta o imaginário infantil para reconstruí-lo sob a luz da consciência. Ao misturar personagens clássicos e embaralhar histórias conhecidas, você provoca o leitor a sair da passividade e questionar as narrativas prontas que moldaram nossa infância. Em versos intensos e corajosos, o poema revela que crescer é romper encantamentos, é deixar as “minas da ignorância” e transformar fantasia em conhecimento. Há dor, há crítica, mas há também uma busca luminosa: a “ganância do saber” como força libertadora. CONTOS não é apenas uma releitura de histórias infantis — é um rito de passagem poético, onde a imaginação confronta as sombras para reencontrar a luz.
- 11
CONTRAMATRIZ
O poema CONTRAMATRIZ é um mergulho contemplativo na origem do ser. Em poucos versos, respiração e transcendência se confundem, como se cada “aspirar” e “expirar” fosse um movimento entre dois mundos — o visível e o invisível. A busca pela “contramatriz” revela um anseio de retorno ao ponto primeiro, ao Mistério que antecede a forma e o tempo. Há no poema uma dimensão cósmica e espiritual: somos aprendizes que deixaram um Espaço Maior para experimentar a matéria, mas que nunca deixam de sentir o chamado de volta. CONTRAMATRIZ é silêncio respirado, é filosofia condensada em fôlego, é o ser humano tentando lembrar de onde veio enquanto aprende a ocupar o mundo.
- 12
CREPUSCULAR
O poema CREPUSCULAR é um retrato intenso da fuga interior. O crepúsculo, refletido no retrovisor, deixa de ser apenas paisagem e torna-se metáfora da dor que insiste em acompanhar, tentando ultrapassar o presente. A estrada é mais que caminho físico — é travessia emocional. Há urgência em “dobrar a esquina”, em encontrar um cruzamento que ofereça nova direção, mesmo que provisória. O poema revela o instante exato entre permanecer e mudar, entre a ferida aberta e a esperança que ainda pulsa. CREPUSCULAR é movimento, é respiração ofegante diante da sombra que persegue, mas também é a coragem de seguir adiante, buscando outra avenida possível.
- 13
CRISTO NA PORTA
O poema CRISTO DA PORTA é uma oração em forma de súplica íntima. Nele, a Porta não é apenas passagem física, mas símbolo da alma que deseja ser aberta à Paz, à Luz e à presença divina. Há vulnerabilidade, há cansaço, mas sobretudo há fé insistente — aquela que bate, espera e continua chamando. O diálogo direto com Cristo revela um coração que não quer apenas consolo momentâneo, mas transformação permanente. Pedir a chave é assumir maturidade espiritual: não esperar que a Porta se abra sozinha, mas aprender a abri-la por dentro, todos os dias. CRISTO DA PORTA é clamor, é entrega e é decisão — a escolha consciente de viver na Luz, apesar das dúvidas e dos medos.
- 14
DANÇA DE CORES
O poema DANÇA DE CORES é celebração, memória e identidade em movimento. Os lençóis que “tomaram vida” transformam-se em símbolos vivos de união, criatividade e pertencimento. A quadra deixa de ser apenas espaço físico e torna-se palco de missão, arte e emoção coletiva. Ao som de Morricone, corpo e tecido dialogam, escondem e revelam, como se cada gesto escrevesse no ar versos invisíveis. O verde, o amarelo, o azul e o branco não são apenas cores — são sentimentos compartilhados, são bandeiras interiores hasteadas no coração. DANÇA DE CORES é espetáculo que transcende o evento: é a prova de que quando a arte encontra propósito, até o sol da manhã aprende a brilhar diferente.
- 15
FLOR DA PELE
O poema FLOR DA PELE é intensidade emocional em estado puro. Ele revela o amor que transborda apesar das tentativas de contenção, como perfume inevitável que denuncia o sentimento escondido. Há uma luta delicada entre razão e impulso, entre o desejo de não se expor e a chama que insiste em arder. O olhar que escapa, o gesto simples que acende o coração, o fogo do êxtase — tudo compõe essa dança íntima entre verdade e ilusão. Ao declarar-se “pedagogo da ilusão”, o eu lírico reconhece sua própria consciência afetiva, como quem ensina a si mesmo os limites do sentir, mesmo quando o sentir vence. FLOR DA PELE é paixão contida e revelada ao mesmo tempo — é o instante em que a emoção supera o silêncio e floresce.
- 16
FRESTA
O poema FRESTA é uma viagem cósmica e sensorial pela existência. A luz visível torna-se apenas “fresta” diante da imensidão do espectro — metáfora poderosa para a limitação humana diante do infinito. O eu lírico não se contenta com o que é aparente: mergulha em ondas invisíveis, surfa no ultravioleta, flutua no infravermelho, expandindo-se além da matéria. Há ciência e misticismo entrelaçados: o oceano sideral, o Sudário, o olhar da Virgem, os raios cósmicos. Tudo converge para uma travessia espiritual, como uma caravela de luz rasgando o arco-íris da experiência humana em direção ao oriente simbólico — lugar do renascer. FRESTA é transcendência elétrica, é fé expandida em frequência, é a alma atravessando a fresta da luz rumo ao mistério.
- 17
GATO
O poema GATO é uma elegia íntima e dolorosamente humana. A perda do animal de estimação transcende o simples luto — torna-se reflexão sobre ausência, memória e finitude. O que mais dói não é apenas a partida, mas a falta do último gesto, do último toque, da despedida que não aconteceu. Ao descrever o gato com suas imperfeições — sujo, preguiçoso, namorador, insaciável — você o eterniza naquilo que o tornava único. Há ternura na lembrança do tapete, da cama, da geladeira; pequenos cenários domésticos que agora carregam o peso do silêncio. Quando o eu lírico afirma sofrer “perda de sete vidas”, amplia o luto para além do animal: é o homem refletindo sobre sua própria fragilidade. GATO é amor tardio, é saudade que ensina, é a consciência de que toda despedida deveria ser inteira.
- 18
HOLÍSTICA
No poema HOLÍSTICA, proponho uma travessia pela evolução da existência: da matéria à mente, do vegetal ao humano, do eu ao divino. Os versos revelam que aquilo que parece separado é, na essência, unidade. A célula que pulsa na vida simples é a mesma que sustenta o pensamento complexo. No encontro entre Eu, Você e Deus, descubro a integração absoluta — uma visão em que tudo é parte de um único Ser em constante processo de consciência. É a celebração da unidade profunda da vida, além das aparências.
- 19
IGREJA DOURADA
No poema IGREJA DOURADA, convido o leitor a atravessar os portais verde-folha de um dos mais intensos cenários do Barroco baiano, onde ouro, jacarandá e fé se entrelaçam. Entre colunas salomônicas, querubins, fênix e ecos de liberdade, revelo não apenas a opulência artística, mas também as marcas da dor e da esperança que habitam cada detalhe esculpido. A igreja não é somente arquitetura: é memória viva. É o Divino que permeia matéria, suor, sangue e arte. É o contraste entre a clausura e o grito, entre a opressão e o Espírito que observa do teto. Ao final, resta um desejo profundo — permanecer ali, suspenso entre beleza e transcendência, na intimidade silenciosa com o Criador.
- 20
INVISÍVEL
No poema INVISÍVEL, estabeleço um paralelo pungente entre o Calvário e o cotidiano. De um lado, o Cristo entre dois ladrões; de outro, o pai entre dois filhos. Amor que se doa. Amor que sofre. Amor que insiste. Em ambas as cruzes — a sagrada e a humana — há entrega, há dor, há escolha. Mas o mundo observa e não vê. A tragédia do amor que se sacrifica torna-se banal, quase cômica, porque não é espetáculo coletivo, é drama íntimo. O que não atinge a maioria torna-se invisível. Este poema é um convite a enxergar o que passa despercebido: os pequenos calvários diários, as cruzes silenciosas, os gestos heroicos que sustentam vidas — e que, ainda assim, quase ninguém nota.
- 21
ITAPEVA
No poema ITAPEVA, transformo a paisagem em revelação. Do alto, onde as nuvens nascem do abismo como labaredas de vapor, o céu deixa de ser distância e torna-se chão. A natureza se humaniza: sua mão pode ser tocada, seu hálito sentido na brisa que beija torres e montanhas. Entre o Vale do Paraíba e a represa que reflete o infinito, o olhar encontra algo que ultrapassa a geografia — encontra o sagrado. Itapeva chora, não de tristeza, mas de êxtase. E, nesse raro instante de beleza absoluta, a criação espelha o Criador.
- 22
JONAS
No poema JONAS, revisito a antiga metáfora bíblica para falar do homem contemporâneo. Diante da inflação, da fome, da corrupção, das guerras e da desumanização crescente, surge o impulso de fugir — de embarcar para Társis, escapar da responsabilidade, calar a própria consciência. Mas há um momento de silêncio. Um quarto escuro. Um “grande peixe” interior onde somos confrontados por Deus e por nós mesmos. É ali, no recolhimento forçado da alma, que nasce a coragem. JONAS é o poema da virada: da fuga para o enfrentamento, do medo para a missão. Não é sobre escapar do mundo — é sobre atravessá-lo. É sobre partir, apesar de tudo, em direção à própria Nínive.
- 23
LAGOA
No poema LAGOA, a simplicidade da cena — patinhos sobre a água — transforma-se em metáfora da liberdade. Entre tantos que permanecem no conforto da lagoa, um ousa romper o limite, sair do pó e seguir o curso do rio. É a história do espírito inquieto que prefere a correnteza ao repouso, o risco à acomodação. Na solidão da própria escolha, ele descobre a beleza dos que são livres — reis de si mesmos, ainda que incompreendidos. LAGOA fala de coragem, de destino e da nobreza invisível de quem decide voar.
- 24
NADA MAIS
No poema NADA MAIS, duas cenas se espelham: a criança que chora a ausência da mãe no pátio da escola e a mulher que chora a ausência do filho diante do túmulo. Dois vazios. Duas dores. A mesma essência. O que parece definitivo revela-se transitório. O que parece mistério transforma-se em questão de perspectiva. Entre o instante e a eternidade, entre o prisma e a mística, tudo se resume ao tempo — esse escultor silencioso das ausências. NADA MAIS é um convite à reflexão sobre perda, relatividade e transcendência. Porque talvez a dor seja apenas um intervalo. E nada mais.
- 25
NAU
No poema NAU, a paisagem da Ribeira transforma-se em travessia espiritual. A Igreja do Bonfim deixa de ser apenas arquitetura e torna-se embarcação sagrada — uma nau de almas que navega entre o céu e o mar, entre o visível e o invisível. Sob palmeiras que adornam torres e nuvens que anunciam mistério, o sincretismo baiano pulsa: o Rei dos Reis sob o sol de Oxalá, o rumo apontado para Itaparica, repouso de Iemanjá. Entre águas e Altas Esferas, Arcanjos sopram ventos que apenas os iniciados percebem. NAU é viagem de fé, de cultura e de transcendência — um convite a embarcar no mar simbólico onde amor e paz são o verdadeiro destino.
- 26
OBJETIVO
No poema OBJETIVO, o rio torna-se espelho da condição humana. Sereno, persistente e fiel ao seu rumo, ele enfrenta trechos sombrios, contorna obstáculos e segue, sem lamento, até encontrar o mar — seu destino inevitável. Enquanto a natureza cumpre seu curso com paciência e sabedoria silenciosa, o homem hesita, perde-se, impacienta-se. O rio sabe que chegará. Nós, não. OBJETIVO é uma reflexão sobre propósito, perseverança e fé no percurso. Uma pergunta sutil ecoa entre as margens: teremos nós a mesma constância das águas?
- 27
OLÍMPICA
No poema OLÍMPICA, a chama que ilumina também questiona. O espírito que une povos e suspende guerras por instantes revela, ao mesmo tempo, a fragilidade de nossas permanentes divisões. Entre medalhas de ouro, prata e bronze, vibra a ilusão de um mundo perfeito — organizado, justo, harmonizado. Mas sob o brilho das arenas e o fervor das nações, permanece a realidade falha. A chama que encanta também consome. O espírito que une é passageiro. A medalha que consagra é efêmera. OLÍMPICA é reflexão e desvelamento: celebra a grandeza do ideal humano, mas não fecha os olhos para suas contradições. É o espetáculo da esperança confrontado com a verdade do mundo.
- 28
ORICALCO
No poema ORICALCO, a imaginação substitui o telescópio. Não é preciso instrumento para alcançar o infinito quando a mente cria universos e a alma os habita. Entre astros vermelhos, corpos brancos e buracos negros, o poeta dissolve-se na vastidão — estrela incrustada no nada, parte de constelação ainda não nomeada. Diamantes flutuam em nuvens cósmicas, espectros piramidais desenham o palco do infinito, e a Via Láctea deixa de ser simples mapa celeste para tornar-se metáfora da própria consciência. ORICALCO é viagem interior travestida de astronomia: um mergulho na grandiosidade do tudo e na pequenez luminosa do eu — descobrindo que talvez sejamos feitos da mesma matéria rara dos sonhos e das estrelas.
- 29
PRETENSÃO
No poema PRETENSÃO, coloco-me aos pés do Mestre dos Mestres — não em uma sala de aula tradicional, mas na escola do mundo. Ali não há giz, cadernetas ou métodos. Há campos, ramos, pássaros e, sobretudo, amor. Diante do ensinamento silencioso do Cristo, percebo a limitação das minhas próprias estratégias pedagógicas. A verdadeira lição não se dita: vive-se. Não se planeja: entrega-se. Não se impõe: inspira-se. PRETENSÃO é um ato de humildade docente — a confissão de que, diante do Amor que educa pelo exemplo, toda técnica é pequena e toda vaidade se dissolve. É o reconhecimento de que ensinar talvez seja, antes de tudo, aprender.
- 30
RA MA AUM
No poema RA – MA – AUM, mergulho na simbologia dos sons primordiais. RA representa a força vital, o impulso criador, a energia masculina que projeta o verso e acende a chama da existência. MA é o complemento, a essência feminina que acolhe, rima, colore e dá forma — ventre cósmico onde a vida encontra sentido. E então surge AUM: a síntese, a vibração suprema, a consciência que harmoniza opostos e eleva a alma à percepção do todo. Entre notas musicais e frequências espirituais, o poema transforma som em oração e linguagem em ponte para o transcendente. RA – MA – AUM é celebração da unidade — masculino e feminino, som e silêncio, matéria e espírito — entoando, no ritmo do universo, a eterna renovação da fé.
- 31
RESPOSTAS
No poema RESPOSTAS, Atlântida e Ubar não são apenas cidades míticas — são metáforas daquilo que perdemos dentro de nós. Entre o mar e o deserto, entre ondas e dunas, escondem-se fragmentos da alma humana, templos silenciosos que guardam perguntas antigas e respostas ainda não reveladas. O altar não está apenas submerso ou soterrado: está velado pela distração da vida. As respostas que buscamos talvez não pertençam ao passado distante, mas às experiências que ainda viveremos. RESPOSTAS é um convite à escavação interior — a mergulhar e atravessar desertos pessoais até encontrar o templo secreto onde nossas múltiplas vidas se esclarecem.
- 32
RIMAS
No poema RIMAS, o tempo é o grande poeta — ainda que, por muitos anos, pareça escrever versos sem métrica, sem harmonia, sem rima. Dez, vinte, trinta… os números se acumulam e a juventude se distancia. As rugas surgem, as dores chegam, amigos partem. Nada rima — e, no entanto, tudo ensina. Entre perdas e desencantos, a vida parece quebrar o ritmo. Mas, quando os anos avançam, algo surpreendente acontece: a própria existência encontra sua cadência. Cinquenta, sessenta, setenta, oitenta… agora rima. RIMAS é a compreensão de que envelhecer não é perder a poesia — é descobrir que o verso maior da vida só se completa com o tempo. É a rima tardia do eterno adolescer da alma.
- 33
SAPATOS
No poema SAPATOS, objetos cotidianos ganham voz — e que voz! À beira da cama, tênis, saltos e sapatos sociais tornam-se personagens de um drama íntimo. Gritam silenciosamente, expõem conflitos, revelam identidades e papéis que vestimos ao despertar. O tênis escancara a pressa sufocada. O salto alto entoa uma ópera contida. O couro, em suas cores e formas, traduz escolhas, máscaras e desejos. Sempre aos pares, sempre prontos para caminhar — mas nunca neutros. SAPATOS é metáfora do amanhecer humano: o parto da manhã, quando vestimos nossos papéis e enfrentamos o mundo, carregando, nos pés, os ecos dos nossos mais profundos conflitos.
- 34
SUGESTÃO
No poema SUGESTÃO, o Natal é colocado sob reflexão. Sinos que não tocam. Festa sem alegria. Árvore sem luz. Missa sem fé. Campanha sem amor. A forma permanece, mas o sentido se esvazia. Entre símbolos repetidos e gestos automáticos, surge uma pergunta urgente: que Natal estamos celebrando? Quando o Cristo se ausenta, restam apenas cenários — não essência. SUGESTÃO é um chamado à consciência. Não para negar a tradição, mas para resgatá-la. Para devolver à data o que lhe dá vida: luz verdadeira, amor autêntico e fé viva.
- 35
TALIÃO
No poema TALIÃO, a dor coletiva ecoa como um tribunal invisível. Vozes silenciadas — vítimas esquecidas, corpos sem túmulo, vidas interrompidas — clamam por justiça. O poema percorre o luto social, a revolta contida e o peso da impunidade que atravessa gerações. Entre o grito das vítimas e a resposta dos homens, surge a antiga lei: olho por olho. Mas será justiça ou reflexo da própria violência? O texto não oferece conforto — oferece confronto. TALIÃO é um espelho incômodo da sociedade. Questiona até que ponto a justiça humana é reparação ou repetição. É poesia que fere para fazer pensar.
- 36
TEMPERO DA DADÁ
No poema TEMPERO DA DADÁ, o sabor vira memória e a culinária transforma-se em afeto. Entre moquecas, vatapás, bobós e mariscadas, a Bahia não é apenas cenário — é alma temperada com dendê, simpatia e calor humano. Dadá não é só cozinheira: é ponte. É o encontro entre o mar e o coração, entre o visitante que chega e o amigo que parte com saudade. Cada prato carrega história, cada tempero espalha identidade pelas ladeiras de Salvador. TEMPERO DA DADÁ é celebração da amizade que nasce à mesa, do aconchego que permanece na lembrança e do gosto que nunca se esquece. É poesia que se prova — e se guarda na alma.
- 37
TRIÂNGULO AMOROSO
No poema TRIÂNGULO AMOROSO, a geografia do Guarujá transforma-se em romance. Costões, pontas, praias e morro deixam de ser paisagem e tornam-se personagens que se buscam, se miram e se desejam através do Atlântico. Entre a Praia das Astúrias, a Enseada e o Morro da Campina, nasce um jogo de sedução natural — um triângulo onde mar, terra e vento conspiram em harmonia. Ondas levam recados, brisas sussurram segredos e a Serra do Mar testemunha esse amor enfeitado pela Mata Atlântica. TRIÂNGULO AMOROSO é poesia que humaniza a paisagem e revela que a natureza também ama — em silêncio, em movimento, em eterna correspondência.
- 38
VAZIO
No poema VAZIO, a cidade transforma-se em boca aberta — arcada dentária de concreto onde prédios são dentes arrancados e tratores tornam-se instrumentos cirúrgicos de uma modernidade implacável. Cada demolição cria um espaço que logo será preenchido, mas nunca devolve o que foi perdido. Entre próteses de luxo e memórias soterradas, Ribeirão Preto se reconstrói como Fênix urbana — porém sem o encanto da infância que habitava suas fachadas antigas. O progresso fecha os espaços físicos, mas abre vazios na história. VAZIO é um lamento crítico e amoroso. Questiona o preço do crescimento e denuncia o silêncio diante do tombar do patrimônio. É poesia que escava — não o concreto — mas a consciência coletiva.
- 39
VOTO
No poema VOTO, o ato solitário da cabine eleitoral transforma-se em ritual íntimo. Entre santinhos, promessas e manifestações coloridas, o eleitor recolhe sonhos, dúvidas e esperanças — e leva consigo muito mais do que um título. No silêncio da urna, sem plateia, sem rosto, sem aplauso, acontece o gesto decisivo: escolher no escuro aquilo que projetamos como futuro. O voto torna-se ponte entre ontem e amanhã, entre ilusão e responsabilidade. VOTO é reflexão sobre a força e a fragilidade da democracia. É o instante em que depositamos não apenas um nome, mas nossas crenças — e depois, muitas vezes, hibernamos politicamente, aguardando o próximo despertar.
- 40
VOZES
No poema VOZES, percorro os séculos da literatura portuguesa como quem atravessa uma pátria sonora. Do Trovadorismo ao Modernismo, cada movimento ecoa como herança viva — conselhos, sonhos, sermões, suspiros e inquietações que moldaram a alma de um povo. Entre Garrett, Vieira, Pessoa e tantos outros, não leio apenas versos: escuto a identidade que me constitui. Portugal não é apenas geografia — é memória literária, é tradição que atravessa gerações, é a música das palavras que me antecederam. VOZES é homenagem e pertencimento. É o reconhecimento de que, na voz eterna dos poetas, pulsa também a minha própria voz — descendente orgulhoso de uma história escrita em versos imortais.